Quando eu estava na faculdade, um palestrante disse que a música de protesto havia acabado no Brasil. Isso ficou marcado na minha cabeça, causou uma certa inquietação. Ele dizia que o último músico a fazer protestos em suas letras foi Chico Science, com a Nação Zumbi. Concordo que era música de qualidade, com conteúdo carregado de problemas sociais. Sempre fui um fã do Manguebeat, mesmo depois da morte de Chico, em 1997. Mas tem um músico – e escritor – que, na minha opinião, continua fazendo um ótimo trabalho com suas letras, que não se acabou com drogas ou foi vítima de Aids: Gabriel, O Pensador. Suas primeiras músicas, compostas no início da década de 1990, estão voltando a ser atuais, como “A Dança do Desempregado” e “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, que chegou até a ser censurada por Fernando Collor de Mello. A prova de que Gabriel ainda está em alta é que no mês passado ele e Falamansa lançaram a música “Cacimba de Mágoas”, com uma letra pesadíssima, que faz referência à lama que cobriu Mariana (MG). Calma, agora vou relacionar tudo isso ao futebol. Quando se fala em música nesta modalidade, surgem “Fio Maravilha”, do Jorge Bem Jor; “É uma partida de futebol”, do Skank; “Eu quero ver gol”, de O Rappa; “Sou Ronaldo”, do Marcelo D2; ou até o “Um a Zero”, do Pixinguinha – essa última instrumental, em homenagem ao Sul-Americano de 1919. Mas são todas músicas que enaltecem a paixão do brasileiro pelo futebol. É tudo o que a gente sempre fez, usar o futebol para esquecer de nossos problemas sociais, econômicos e políticos. E é aí que entra Gabriel, O Pensador mais uma vez. No fim da década de 1990, ele lançou a música “Brazuca”, que nem chegou a fazer muito sucesso, mas é temperada com muita crítica. Parece que foi escrita ontem. Conta a história de dois irmãos com trajetórias opostas. É um pouco exagerada, é verdade, mas serve pra chamar a atenção de como nós, brasileiros, somos muito tapados. “Futebol não se aprende na escola/É por isso que o Brazuca é bom de bola”. Segundo a música, Brazuca é um Neymar da vida que tem um irmão, digamos, ‘desfavorecido’. Pra resumir a história, no dia em que Brazuca faz o gol do título da Copa, Zé Batalha leva um tiro na cabeça. E pior: não tem ninguém pra carregar o corpo porque está todo mundo comemorando a conquista da Seleção Brasileira. “É campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação/É campeão da covardia e da miséria, corrupção/É campeão da ignorância, do desespero, desnutrição/É campeão do abandono, da fome e da prostituição.” Volto a repetir: tem exagero nessa letra. Os mais radicais vão dizer que ela não condiz com a realidade porque o Lula tirou 10 milhões de pessoas da miséria. Mas, em proporções menores, ela nos faz refletir sobre a forma que tratamos o futebol.
Isso que em 1999 Gabriel, O Pensador nem sabia que o Brasil seria sede da Copa do Mundo de 2014. Nem imaginava que estádios seriam superfaturados e que o assunto futebol se sobreporia à corrupção. “Juiz apitou… Tudo como tinha que ser: Tá lá mais um gol e o Brasil é campeão/Tá lá mais um corpo estendido no chão”.
Adolfo Pegoraro é jornalista do Jornal de Beltrão e da Rádio Continental FM.